O terrorismo como fator de risco nos negócios do Brasil

29 de abril de 2016

Não faz muito tempo, fui procurado pelo Guilherme Kujawski, jornalista da revista “Carta Capital”, para falar sobre a possibilidade de ataques terroristas no Brasil e como as empresas poderiam se proteger desta ameaça.

Minha resposta foi simples: hoje em dia, onde as empresas dependem de informações e orientação de mercado e matrizes localizadas no exterior, é impossível dizer que o país é imune a este tipo de eventos.

Não importa se as vítimas se encontram a mil, dois mil ou dez mil quilômetros de distância: seus efeitos se alastram ao longo das empresas, repercutindo por todo o segmento e, como no caso do WTC, por todo setor produtivo do planeta.

Seja por causa dos danos materiais acarretados, seja por causa da inoperabilidade de processos, face ao desastre, a perda injustificável de vidas humanas afeta a todos e a cada um de nós, dentro de nossas rotinas. Meu último artigo, escrito sob forte emoção, causada pelas imagens transmitidas pela TV, traduzem este sentimento que certamente ecoou por todos aqueles que se imaginaram no lugar das vítimas ou de seus familiares.

Um dos princípios do PCN, quando destinado à continuidade de negócios de empresas que apresentam risco de danos físicos, é a integridade e o conforto de seus funcionários, considerados como o seu ativo mais precioso. Os recursos humanos devem merecer atenção especial do consultor que esteja implementando um projeto de PCN, não apenas se preocupando com os funcionários da empresa, mas também com seus familiares, que provavelmente estarão preocupados ou ansiosos com acontecimentos envolvendo o local de trabalho de um de seus membros.

Esta preocupação mútua, inerente à espécie humana, pode agravar o estado de tensão pré-existente em situações de crise, acarretando a erros e falhas humanas que não são toleráveis naquele momento.

Quando escrevi meu último artigo, enviei cópia através de uma newsletter para cerca de 1.400 pessoas, das quais apenas uma -funcionário responsável por segurança e qualidade- criticou seu conteúdo, taxando-o de öportunsta”. Caso tivesse analisado o texto, talvez sua empresa não tivesse sofrido um grave acidente que acarretou na perda de parte de uma unidade de produção.

O PCN não é nenhuma panacéia universal. Tampouco uma solução definitiva, para as ameaças de parada de empresas. Entretanto, quando bem planejado, torna-se um seguro de alta confiabilidade, reduzindo as perdas inerentes do casuísmo característico de nossa cultura brasileira.

Depois dos acontecimentos do WTC, tenho recebido dois a três pedidos de visita a empresas, para avaliar a atual situação de resposta à crises, nelas existentes. Dois terços destas empresas são filiais de matrizes estrangeiras, caracterizando a importância que o americano e europeu destinam à continuidade de seus negócios.

Não faz muito tempo, li na “Gazeta Mercantil” sobre o drama da empresa “Cantor Fitzgerald”, que perdeu 700 funcionários na tragédia de New York. A empresa simplesmente deixou de existir fisica e conscientemente ! Apesar de possuir back-ups de seus dados e hoje estar operando precariamente em instalações ao longo de escritórios temporários e filiais, não existem “cabeças” que dominem a situação dos seus negócios.

A empresa teve sua espinha dorsal partida, perdendo uma grande quantidade de componentes insubstituíveis: o conhecimento e o talento humanos.

Longe de mim criticar a preocupação que nossos profissionais brasileiros investem nas suas áreas de TI (Tecnologia de Informação). Mas TI, sem seus operadores e técnicos, não é nada além de aplicativos e dispositivos que facilitam a operação de funcionários que deles dependem para executar suas tarefas.

A mentalidade das corporações nacionais deve aprender com as fatalidades alheias, antes que venham a sofrer com a sua falta de sensibilidade pela ausência de fatores de risco semelhantes. Conforme o parágrafo final do fantástico artigo do jornalista Guilherme Kujawski, “Talvez seja verdade que no Brasil não existam ataques de terroristas fanáticos, mas isso não o isenta de outros acidentes. O mais recente é a ameaça do Apagão, mas a história não esqueceu das explosões da CSN, do assalto à Delegacia d Receita Federal, em Santo André, da P-36 e o recente caso do incêncio no depósito da Nestlé”.